Sal de conservar caminho

textos e três respostas Andreza Pereira

 

 

Sal-dor

Lágrima por mais que doa, voa
E deixa sal de conservar caminho

 

Nas muitas águas

Três voltas na torneira
O punho volta par à maçaneta
Alinha em fio a tela tombada
Cintila o quarto empurrando com a ponta do dedo dias e noites
(É noite)
Se deita
Seu corpo agora atado no escuro sonha com o mar
Nas muitas águas
o anguloso corpo se curva
e recosta
dentro de uma alta e espumosa onda torta

 

 

Respostas

Quais autores do centro-oeste mais lhe interessam? Há algum cuja obra dialoga com o seu trabalho?

Manoel de Barros e Ricardo Guilherme Dicke. A sensibilidade de Manoel de Barros para as miudezas, para as coisas mais ordinárias e pisadas é um exercício da sensibilidade poética em si, do estranhamento da realidade. Ele escreveu sobre o encantamento inaugural com as coisas velhas, pequenas e cotidianas. E o que escrevo deseja acenar a esse olhar. Sua poesia também estranha a própria linguagem, subvertendo a sintaxe, fazendo o verbo “pegar delírio”, tendo prazer na “doença das frases”. A inventividade da linguagem, tão presente na condensada matéria do verso, é um elemento que me mobiliza tanto como leitora quanto como escritora.

A distância do eixo rio-sp é uma vantagem ou uma desvantagem?

Nossa configuração cultural acabou por qualificar aquilo que é produzido no eixo Rio-SP como simplesmente o Brasil e aquilo que se faz fora desse espaço como adjetivável de diferentes formas. Em tempos de circulação cada vez mais pulverizada de conteúdos e de busca de linhas de fuga, poderíamos fazer das geografias já não tão imperiosas. Há diferenças que persistem no que diz respeito à maturação de uma cena literária. Em Cuiabá, por exemplo, ainda não se consolidou um mercado editorial literário que se mantenha somente da venda de livros ao público. Em meio a essas diferenças, há arejamentos generosos de trocas de vozes e críticas entre nossas fronteiras já mais porosas.

O que falta na literatura brasileira que está sendo produzida hoje?

Extrapolando o polo da escrita propriamente, penso no fortalecimento da figura do leitor. O leitor é também um mediador entre a obra e o autor. A obra não é um produto fixo e unívoco e se completa no processo da leitura. Acredito que fortalecer a literatura contemporânea, em suas experimentações e renovações, passa por dar fôlego a esse leitor na recepção complexa do ato literário.

– – – – – –

Andreza Pereira nasceu e vive em Cuiabá, é escritora e jornalista, tem textos em antologias coletivas. (P.S.)

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