Busca em caixa de abelhas

texto e quatro respostas Lara Matos

 

 

Sinonímia 

Não sou dada a amores com vítimas
Nem destinada ao cárcere
Destes dias repetidos com ampla carta
De desejos médios – o apartamento
três quartos mobiliado, o emprego estável,
A casa de família,
Os parentes adestrados em almoços
De domingo.
[As mangueiras ao sol,
Se quisermos um clichê mais
Bonito]

Só que por dentro
O amor se exaure
Pelo ralo do tédio
Consumido no limbo
descrito em compromisso
Na fuga eterna dos prazeres
secretos.

Moral da história de quem tudo quer
tão rápido:
Noves fora, nada.
Somos todos culpados, se existirmos
Deixe isto.
E todos alimentamos fantasmas
com lágrimas de certo modo.

Apenas nego a sinonímia
E desprezo aquela mágoa que jaz tão
Arranhada ecoando no bar
Com os amigos, em toda fresta da casa,
Nos porta-retratos,
em seus inúmeros lapsos – e que só se esconde
No quarto escuro, comigo, de olhos fechados:
Para boa entendedora, meia verdade basta.

 

 

Respostas

A busca de identidades parece ser marca forte na sua poesia? A identidade é uma das condições da sua escrita?

O lirismo em si exige uma coordenação sobre o que se quer dizer, e muitas coisas que escrevo são autobiográficas, e nesses anos todos de Caixa de Abelhas dá para acompanhar meu amadurecimento e formação de identidade, algo bem forte porque mesmo nos poemas em que não falo em primeira pessoa estou presente em ironias e observações, intervindo no que está sendo dito. Há alguns anos (uns quatro, por aí) passei a ter uma visão mais madura da escrita como identidade mesmo, e não como o “demônio” ou “maldição necessária” que muitos escritores afirmam. Escrever é quem eu sou porque a linguagem escrita é fascinante e por meio dela eu consigo dar o melhor de mim.

Qual o peso de Teresina no que você escreve? 

Certa vez, ao conversar com o Marcelino Freire sobre minha relação com Teresina, eu falei que a gente se ama mas não se gosta. O provincianismo atravanca certas posturas (femininas mais ainda) e isso realmente pesa muito nos meus poemas, por ser a marca dos ressaibos de conservadorismo por aqui. Mas esse incômodo move e faz criar como defesa, e portanto, é parte de quem eu sou e jamais o eliminaria da minha vida.

Onde entra o abandono nas suas inquietações de poeta?

Acho que o abandono, amoroso ou não, é uma fonte inesgotável de mão de obra, seja de quem vai ou de quem fica (já estive em ambas as posições), e alguns dos meus poemas realmente têm uma dose de amargura grande, como Mancha, porque é a reflexão sobre algo que eu senti e que muitas pessoas, em especial mulheres, já sentiram algumas vez na vida. As pessoas não gostam muito de ver esse sofrimento agonizante, que quer se libertar e que carrega em si muita raiva e quase nenhuma brandura, mas acho que ele é salutar. Encarar as dores de frente, as tristezas normais da vida; penso que lamentar é muito necessário para se conhecer e ser melhor. Aprender que abandonar e desistir faz parte de ser humano também é importantíssimo, e acho que isso está se perdendo no meio de tanta autoajuda pregando onipotência.

Onde está o Nordeste? Onde fica o Nordeste? Onde fica o Piauí quando você decide permanecer leitora de poesia brasileira contemporânea?

O Nordeste, meu Nordeste, e mais ainda, o Piauí, tem uma produção tão excelente quanto desconhecida. São tantos escritores de gaveta, poetas em cadernos cheios de poeira que você fica meio pasma quando nota a qualidade das coisas garimpadas meio a esmo. Não raro eu descubro que alguém do meu convívio mantém um perfil na internet com textos maravilhosos.

O ato de ler e querer conhecer poesia, não só no Piauí, mas no Brasil como um todo, é um desafio, já que há essa crença de que “poesia não vende”, ou mesmo que é algo chato, rebuscado demais ou sem sentido, pensamento que advém da falta de um conhecimento mais profundo de poetas da casa que são excelentes, como Climério Ferreira e H. Dobal. É preciso também desmistificar essa aura do texto poético.

Ser nordestina é respirar uma cultura e uma historicidade muito peculiares, incomuns ao resto do Brasil, e acho que isso se faz notar mesmo por muitas coisas, como ritmos e referências, que são intrínsecas à vida por aqui. Dá para fazer muita coisa com isso, e se por um lado a minha relação com meu estado natal é um pouco complicada, apesar de amá-lo, eu com o Nordeste sou só amores.

Lamentavelmente há muita confusão entre o que é qualidade e o que é performance, (embora as duas coisas se integrem e melhorem uma a outra), mas as excessivas performance e poses de um mau poeta muitas vezes o fazem famoso mesmo que faça coisas horrendas; versos lindos de um poeta sem talentos performáticos fazem bem menos por ele.

– – – – – –

Lara Matos é de Teresina, PI, tem vinte e seis anos e escreve num blog batizado Caixa de Abelhas. (P.S.)

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