Perder o calor das mãos

textos e quatro respostas Amanda Prado

 

 

a bomba que ainda não

eu vi uma bomba
no silêncio dos seus gestos
eu a vi dentro dos seus olhos
como relógios que marcam a noite

eu vi a chuva desenhar sobre a terra
a cartografia exata das suas mãos
a água correndo silenciosa
como se lavasse a sua presença

eu vi o infinito recortado pelas nuvens
como uma espiral que sugasse seus passos
eu vi a bomba e sua certeza

eu vejo a bomba explodir todos os dias
e você eu já não vejo

 

despedida num sábado à tarde

chega um dia em que não há mais sentido para as dúvidas
e é tempo de cultivar o fim que se aproxima
tempo em que os laços se rompem em eternas distâncias
e os abraços resultam inúteis
no inventário de vazios tecido pelos aeroportos
tudo o que resta é wireless

chega aquele dia em que as horas se fecham
como nuvens na iminência de chuva
e não adianta morrer
não adianta escrever e-mails
porque o tempo
máquina de labirintos
faz perder o calor das mãos
e o que fica é apenas silêncio

pouco importam os relógios automáticos
e o mecânico giro dos ponteiros que não se sabem sós
pouco importam os poemas
e suas ilusões de infinito
os ombros já não suportam o mundo
e nada trará ordem
àquilo que foi feito caos

 

final pré-fabricado

o esforço de inventar motivos
e escrever uma carta
em papel de rascunho
tomar um café sem açúcar
assistir à TV desligada
apenas cinco minutos
e ver nessa imagem
a quase projeção de um rosto
sombra redesenhando o vazio

apenas o trabalho
se isto for mesmo um trabalho
de subir as escadas
caminhar até o quarto
(a lentidão é um ato necessário)
vasculhar a gaveta
encontrar uma anotação antiga
sobre compromissos antigos
e no fundo da gaveta
como quem tateia um ninho de rato
a mão
sem nenhuma pressa
teme a mordida

a mão quer cavar a lentidão das coisas
e de dentro dela
retirar uma arma antiga
a mão quer mirar a cabeça
e puxar o gatilho
sentindo quase frio
o fluxo do acaso

 

 

Respostas

Sua cidade é Maceió, mas não descubro um diálogo direto dos seus textos com a cidade de Maceió. Sua poesia e sua prosa são estratégias de fuga?

Para mim, a literatura sempre foi uma forma de fuga, mas não especificamente de uma situação ou de um lugar, mas da realidade de modo mais amplo. Assim como afirma Calvino em “Mundo escrito e mundo não escrito”, sempre preferi viver num mundo feito de palavras, aquele em que as coisas não são dadas apenas de um modo, mas sugeridas em suas múltiplas possibilidades. As palavras têm a vantagem de alimentar a imaginação de um modo muito próprio. Escrever é construir sentidos, apontar possibilidades, e eu sempre gostei de reconstruir as coisas ao meu modo. Essa é a minha fuga. Você diz que não consegue ver um diálogo direto dos meus textos com Maceió, mas eu incluo nos meus textos apenas aquilo que recebo da minha cidade: uma neutralidade fria de zona urbana. Para mim, Maceió não é muito diferente das outras capitais que tive a oportunidade de conhecer. Moro numa área afastada das praias, museus, shoppings, bares, hotéis etc. Mesmo distante, é tudo muito artificial. Embora eu ame o mar, quase nunca vou à praia, pois as praias daqui são todas voltadas para o turismo. O que eu entendo como minha cidade é o fragmento dela a que tenho acesso: o campus da universidade, os aviões passando, o barulho dos carros, a risada da minha vizinha, o latido dos cães, o movimento dos pássaros no jardim. Há quem defenda a escrita como um modo de representar a cultura de um lugar, de um povo. Creio até que seja impossível não fazê-lo. Mas isso nem sempre é feito do mesmo modo. Há várias “Maceiós” dentro de Maceió. Se há uma fuga de Maceió no que escrevo, creio que seja a fuga de uma representação explícita e/ou caricata. Além disso, acredito que a minha escrita tem uma tendência mais para o individual que para o coletivo.

Tua linguagem (a que surge nos teus textos literários) é bastante apurada, quase não há excessos. Ainda assim, sobretudo na tua prosa, há narrativa bem definida (e há densidade).  Há perturbação nesse caminho entre gêneros literários? Há transição que se imponha quando você está criando? Sua consistente formação acadêmica ajuda ou atrapalha?

Comecei escrevendo textos que considero mais próximos da prosa, porque era assim que eu conseguia conceber o meu “mundo escrito”. Nunca soube se aquilo que eu escrevia era mesmo do gênero narrativo, pois eu não escrevia para contar histórias. O que eu queria em cada um dos meus textos era construir um espaço de linguagem, reinventar possibilidades do dizer. Acredito que isso funciona melhor na poesia, pois ela me permite o caos de um modo muito mais livre que a prosa. Mas isso não é exatamente uma preferência. Ainda escrevo textos em prosa sempre que a palavra se impõe como tal, só que isso tem acontecido com menor regularidade. Não há exatamente uma perturbação no trânsito entre esses dois gêneros. Quando escrevo, sinto que cada texto pede a sua forma, a sua linguagem. Tento seguir isso do modo como eu acredito que aquele texto ficaria melhor.

Quando comecei a graduação em Letras e tive as primeiras aulas de Teoria da Literatura, aquilo tudo me pareceu muito assustador e eu parei de escrever. Talvez eu não tenha parado por completo, pois eu não podia impedir que meu pensamento tentasse criar e recriar as coisas ao redor. Acho que o mais coerente seria dizer que a experiência acadêmica me fez, naquele momento, parar de registrar as ideias e criações. Os textos que eu escrevia aos 17 anos, obviamente, não eram bons, mas também não eram necessariamente ruins. Penso que aquilo era um caminho necessário. Só anos mais tarde, já no mestrado, foi que eu voltei a escrever alguma coisa e, mesmo assim, com bastante medo. A minha formação sempre me trouxe muitas dúvidas. Quanto mais estudo sobre literatura, mais insegurança eu tenho. Com o tempo, fui percebendo que era preciso seguir com medo mesmo. E é isso que eu tenho feito. Acredito que a minha formação ajuda muito no contato com a literatura e no encontro com outras pessoas que, assim como eu, se interessam pela escrita e sentem falta de um retorno sobre seus textos. A maioria das pessoas que conheci na adolescência e que se interessavam pelas artes acabaram abandonando suas vocações. Por conta das obrigações da faculdade ou mesmo pela falta de tempo provocada por uma jornada de trabalho desgastante, acredito que elas foram deixando de lado o hábito de ler e o interesse pelas artes. Ter feito um curso na área me ajudou a não deixar isso de lado. Algumas pessoas sentem uma repulsa enorme pelo ambiente acadêmico. Eu não.

O que lhe incomoda em Maceió e nas distâncias que se colocam contra Maceió?

A falta de oportunidade para publicação e a dificuldade de circulação dos textos publicados é o que mais incomoda. Quem escreve quer que seu texto seja lido, quer algum tipo de retorno. Não me refiro de modo algum ao retorno financeiro, pois esse não existe para a maioria, mas a uma possibilidade de diálogo. A escrita é um processo quase sempre solitário e o diálogo faz com que eu não me sinta assim tão sozinha. Nesse sentido, procuro ter por perto pessoas com quem eu possa dialogar, talvez para diminuir essa distância, que não é meramente geográfica. Mas esse diálogo, mesmo em Maceió e com pessoas que passam pelas mesmas dificuldades, tem algumas barreiras. Na contramão disso tudo e como uma alternativa a essas distâncias, há coletivos se formando por aqui, o que é algo bastante positivo para suprir essa necessidade de diálogo, mesmo que seja apenas para criar uma falsa ideia de pertencimento. É tudo ficção, no final das contas. O coletivo de que faço parte é também uma ficção – e eu gosto de viver essa ficção.

Para onde vai sua literatura e com que vozes contemporâneas sua literatura dialoga?

Sou uma pessoa desesperançosa e silenciosa. Acredito que o que eu escrevo tem muito a ver com isso. Gosto também daqueles textos que dizem as coisas de maneira não tão óbvia, fazendo uso das entrelinhas. Isso, obviamente, não quer dizer que eu consiga escrever desse modo. A minha escrita é sempre um percurso, uma tentativa. Costumo gostar de escritores e escritoras que me fazem ter algum tipo de iluminação, que me dão vontade de escrever. Na prosa, não há textos que me provoquem tanto quanto os do Amilcar Bettega, que é o autor que eu estudo atualmente no doutorado. Da literatura que me foi possível ter contato – dentro e fora do ambiente acadêmico – foram os contos dele que mais me afetaram, que mais me colocaram para pensar, e que ecoam em mim de um modo único, como se eu estivesse presa a um eterno labirinto que, por mais que eu tente desvendar o percurso, possui sempre algo de novo para mostrar. Também na prosa, vejo uma estranheza incrível na linguagem de Sem vista para o mar, da Carol Rodrigues. Na poesia, gosto da Ana Martins Marques e, não tão contemporâneo no tempo (e sim no modo), do Drummond. Não sei se são vozes com as quais eu dialogo, mas são vozes com as quais eu gostaria de dialogar.

– – – – – –

Amanda Prado nasceu em Maceió-AL, é doutoranda em Estudos Literários e integrante do coletivo Elisa. (P.S.)

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