Projetos de sobrevivência

textos e quatro respostas Roberta Tostes Daniel

 

 

Enseada

Chega da praia ou vai à praia
a cidade é praia.
Na sexta-feira, quase morre.
Porque a cidade toda morre
cidade-morte.
A vida é o trajeto da casa
para o trabalho, para a praia
para a morte.
Segundo certas revistas
há nisso sentido.
Se te ameaçam com faca
por exemplo, não sobra dinheiro.
E se, morta, ficará vagando
na estatística, e sem celular.
As coisas têm sua instância
no poder de nomeá-las
mesmo absurdas.
No entanto, quase inteiramente
sobra, no rápido descarte
com que essas coisas
nos auferem seu completo
declínio do pensamento.
Nos espaços e nos intervalos
nas muitas noites em claro
sem perceber a escuridão roxa
por debaixo dos olhos.
Remédios para afinar o sangue
desencavar do rosto o tempo
para fazer dormir.
Se você não aceita perder tempo
ou acumular falsos lembretes
seu maior insulto será
olhar as páginas que caem
de listas infinitas
inconclusas, inconciliáveis.
Moldar sua palavra no cotidiano
e afugentar os verdadeiros retratos
seus, das pedras, das pessoas
dos conceitos, dos poetas
e de revistas, outras.
Serão como campinas que crescem
que te alimentam
ou parasitas possíveis.
Obliterações e máquinas
de taxar preços e assuntos.
Os lugares, devastados
de pessoas nas enseadas
pessoas que não pensam.
Mas, se espera o calor baixar
aí sim, para tomar seu lugar
na pertinência dos objetos
que te dizem respeito
e dos seres a quem pode
tocar como se toca o sal
da água aonde vai
a maré com detritos
e o corpo movido pelo toque
de todos os amantes –
se faz o gesto da recusa
por apreço do silêncio
sabendo do movimento que vigora
no desmonte das soberanias
dos fluidos e das línguas
excretadas:
o que semeia não terá nome
as instâncias serão jazidas
onde alcançará
o que te vence e destina.

 

‘The sun was beginning to set, as she slipped into the water’Arab Strap

Embebidos pelo rio.
Haustos
de possibilidade:
devaneios fundos.
Refugam
onde os braços crescem
– entre as brechas de luz.
Onde se arrebatou
com violência
aquela canção.
Encharcados
pela música.
A cadência quer dizer
que talvez o corpo
retornasse ao mundo
imergisse em mim.
O desejo
é o que perdura
aceso:
um atalho
pela floresta
um dizer: venha
ou poderiam
dispor do não.
Mas todo mergulho
é música.

 

Sem título

As palavras trazem gestos
na maldição dos anéis
de saturno consumidos
pelo signo destrutivo
dos campos de lezíria.
Caminhantes pelos condados
na estreita ventania –
me distraio com o que vibra
no interior dos oceanos
crescentes.

 

 

Respostas

Percebo uma voz própria nos teus textos ou ao menos uma busca bastante determinada por uma voz própria. Como foi e é a sua busca pela singularidade?

Acredito que a singularidade comece como um tipo de sintoma e seja própria dos deslocamentos da vida. No meu caso, a escrita se deu por transferência, talvez genética, sobretudo sentimental e narrativa. Meu pai foi poeta e faleceu muito jovem. Seus poemas, que se acumulavam em guardanapos e papéis os mais diversos, foram quase todos rasgados e perdidos após a separação conjugal. Mas cresci com a poesia sendo pronunciada e apresentada em casa desde cedo; as histórias que permeavam meu pai, contadas e recontadas a partir desta ligação com o que só pode ser reconstruído de maneira singular – o perfil do ausente. Até o fim da adolescência, escrevendo de maneira esparsa, sem nenhuma busca determinada. Aos dezenove anos, passei dos cadernos para os blogs, e o que era tão só confessional começou a assumir a forma de uma prosa poética intensa, desordenada. Até hoje escrevo em blogs. Nos últimos cinco anos, depois de um longo percurso pela escrita, no meio digital, meus poemas alcançaram, espero, essa voz própria a qual você se refere, e me deixa muito feliz. Por mais que os deslocamentos que citei tenham propiciado mudanças e novas perspectivas e, quem sabe, uma singularidade, as motivações são basicamente as mesmas: escrever para responder às variadas formas da invisibilidade, para existir.

Sua escrita mudou com o tempo? Há um lugar aonde chegar? Você acredita em projeto literário (autores com projetos literários)?

O percurso anteriormente descrito já adianta uma das respostas. Percebo que mudou muito, até porque por uns oito anos o que escrevia era estruturado em prosa. Não faço a menor ideia de onde quero chegar. Ainda não publiquei um livro, sinal muito claro dessa indefinição. A escrita é algo central na minha vida, sem a qual seria uma sucessão de acontecimentos desconexos e sem muita vitalidade, tendo em vista o caráter transitório de tudo e a minha insustentável relação com a memória e o tempo. Já há um consenso entre os mais próximos de que, caso me perguntem a hora, a qualquer momento do dia ou da noite, e mesmo se eu não tiver quaisquer referências, saberei. A sensação do tempo transcorrido é lentamente destilada em meu corpo. Sinto soar cada segundo. Nessa perspectiva exagerada e pungente, meu projeto é o da sobrevivência. Mas não no conforto da sobrevida, e sim me contrapondo e afirmando, ritualizada, caótica e ressignificada. No entanto, acredito em autores com projetos literários, mas não no congelamento dos processos.

O eixo Rio/São Paulo contém muitos caciques literários, muitas escolas, muitos clubes. Como a solidão facilmente detectável na sua poética se encaixa nesse horizonte amplo, nessa dinâmica?

A solidão da escrita foi atravessada pela das leituras, o que mudou minha própria dinâmica com o fazer literário. Eu não tinha aspirações literárias, por assim dizer, no sentido da veiculação dos meus textos em revistas, em ter necessariamente uma obra publicada. Até cogitava fazê-lo, mas sempre futuramente; a experimentação pedindo passagem, antes de tudo. Com isso, nunca consegui me organizar para publicar, ou mesmo senti necessidade. Pelo contato, predominantemente virtual, com outros autores e alguns editores, a maioria do eixo Rio / São Paulo, o que escrevia passou a ser mais lido e naturalmente houve a incorporação de novos elementos e objetivos. Para além dos clubes e das escolas, da necessária construção descentralizada e democrática da cultura, que transpasse o país pluralmente, prezo a liberdade, dos processos, do indivíduo no fazer artístico, e à ideia da liberdade minha alma se ajoelha, como li recentemente num texto do Robert Walser. Ele continua: “Talvez muitos não saibam lidar com a liberdade por não quererem se acostumar a levar em conta sua fragilidade”. Ou seja, por mais que movimentos e grupos se afirmem, que autores sejam referenciados, editados e conhecidos, que revistas façam seu trabalho e divulguem, a solidão é inevitável e necessária para a realização da escrita, uma solidão essencial, que caiba na capacidade de se situar frente às potências do mundo. É preciso dizer ainda que é por meio das potências e das realizações coletivas, de pessoas curiosas, generosas e instigadas, que os textos, meus e de muitos, circulam na rede – o que era antes confessional, assume um lugar de fala, da fala inventiva, que não se amolda às demandas meramente utilitárias, e se faz com interlocutores, mesmo que os signos de uma determinada poética, e até de uma vida, sejam a solidão.

Qual a temática mais árdua? Qual o medo que só Roberta pode entregar aos leitores de Roberta Tostes Daniel?

A temática mais árdua é aquela recorrente, em que as palavras são facilmente acessadas, e é o caminho conhecido por meio do qual a escrita se abre para investigar tantas coisas, o silêncio, a morte, o amor, a temporalidade, a metalinguagem, os fatos da vida, as historicidades múltiplas, os seres, a eternidade na epifania de certos momentos. Uma longa resposta na tentativa de tatear realmente aquela que seria a temática mais difícil. Eu acho que é exatamente a solidão, a solidão manancial, extraída das imagens da infância, onde o mar era a resposta silenciosa das indagações ainda não formuladas.  Uma incompreensão fecundada depois pela palavra. E por que é a mais árdua? Porque não pede revisionismos, mas coragem, mesmo que seja a de se repetir e abrir brechas a partir de onde tudo tenha começado. Essa coragem é feita da fragilidade da liberdade, e dos diversos medos comuns e idiossincrasias de nascença e de percurso. Nessa perspectiva, da coragem humanizada, todo medo pode ser também relativizado. O medo, então elemento do que organiza cada investida contra as dissoluções – o medo peculiar é o da ternura lúcida que comanda uma dicção, que se descreve para ver o outro.

– – – – – –

Roberta Tostes Daniel, carioca, vive no Rio de Janeiro, formada em Letras, trabalha como funcionária pública do município, escreve em blogs desde o início dos anos 2000 – e prepara seu primeiro livro. (P.S.)

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