Renderizando as cinzas

entrevista Caco Ishak

 

 

ESTRAGO.
É inegável o impacto positivo do teu romance, o “Eu, cowboy”. Como teu leitor, entretanto, não consigo deixar de te reconhecer como poeta, uma voz importante, necessária. Esse teu romance, o teu primeiro, por sinal, te tornou menos poeta?

CACO ISHAK.
Me parte o coração ter de discordar de ti, mas não é pra tanto. Não se trata de falsa modéstia, longe disso. Só aprendi a encarar a questão da seguinte maneira: caso me permita a acreditar no que dizem que eu sou, jamais vou conseguir descobri-lo por mim mesmo. O que, no fim, é a matéria-prima da literatura: a dúvida. Se o “Eu, Cowboy” me serviu pra algo foi justo alimentar o fogo dessa dúvida. Não me tornou menos poeta, portanto. Mas me fez questionar, sim, se eu era de fato poeta e qual rumo minha poesia vinha tomando. O que acabou tornando o ato de escrever poesia um tanto mais difícil, raro, confuso, porém mais honesto.

ESTRAGO.
Ser poeta do norte do Brasil é, em parte, estar em busca da atenção do sudeste?

CACO ISHAK.
Ser poeta neste planeta é estar sempre em busca de um ouvido que lhe dê atenção, nem que seja o próprio. Aliás: é fundamental aprender a ouvir tua própria voz antes de querer ser escutado pelos outros. Poeta é bicho carente por natureza, e essa carência pode ser traiçoeira. Não só o ensurdece, também o cega e muitas vezes acaba por emudecê-lo. Sabendo escutar a própria voz, talvez o poeta consiga se emancipar de si mesmo e aí sim, quem sabe, dar voz ao todo.

De resto, megalomania à parte, minhas pretensões como poeta são humildes: alcançar apenas dois pares de ouvidos, das duas meninas que venho criando. Se apreenderem alguma coisa e repassarem a mensagem, morro feliz. Como sempre digo: posteridade pra mim são elas duas.

ESTRAGO.
Onde estão os leitores do que é produzido pelos poetas de Belém do Pará?

CACO ISHAK.
Acho que a questão aqui seria: onde estão os poetas de Belém? Não nas estantes das livrarias. Quanto menos nas estantes das livrarias imaginárias do Norte. O Pará sempre teve bons e reconhecidos poetas e romancistas. Havia dois paraenses entre os fundadores da Academia Brasileira de Letras, José Veríssimo e Inglês de Souza. Outros tantos  nomes surgiram desde então: Dalcídio Jurandir, Haroldo Maranhão, Eneida de Moraes, Benedito Nunes, Max Martins, Osvaldo Orico, o famoso “double zero”, pra ficar em alguns dos já finados. Portanto, falta memória, falta incentivo, políticas públicas, mercado. Mas isso tudo falta em qualquer cidade, nada exclusivo de Belém – não em pleno século XXI. O que talvez possa ser minimamente revertido com algumas medidas cirúrgicas. A primeira, sem dúvida, seria resgatar os mestres supracitados que o Brasil simplesmente desconhece. A segunda seria dar voz aos novos escritores que estão por aí, a maioria jamais publicada senão em seus blogs. Meus dois centavos de contribuição nesse sentido não tardam. Em dois ou três meses, enfim sai a coletânea que venho organizando desde o ano passado, Bonde Cuspindo Gente, com cerca de 30 escritores entre os 18 e 49 anos. Espero que conquiste seu espaço nas estantes e, assim, seus leitores.

ESTRAGO.
Quer falar um pouco mais sobre essa coletânea?

CACO ISHAK.
Não é de hoje minha vontade de publicar alguns tantos bons e novos autores paraenses que, em sua maioria, nem sequer saíram dos blogs – o que parece ser uma frustração minha bem mais do que deles próprios. Fazia anos que vinha alimentando a ideia, embora com a mesma procrastinação de sempre, até que o aniversário dos 400 anos de Belém me deu uma sacudida. Um porém: o festejo caiu em 2016. E 2016, como todos sabemos, não foi um ano bom, nada digno de comemorações. Resolvi então transferir o lançamento pra 2017, o que acabou sendo a melhor decisão. O projeto começou com cerca de 20 autores, hoje são 30, cada qual com um conto/crônica ambientando um bairro da cidade. Escritores que cresceram comigo, escritores que cresci lendo, escritores que fui conhecendo com o passar dos anos. Sobra gente boa escrevendo pelas plagas de cá, escrevendo de verdade, e não se valendo de cacoetes de linguagem pra inglês ver. Nada de uirapurus ou terminologias regionais vazias de significado. O nome foi retirado de um trecho do romance “Belém do Grão Pará”, do Dalcídio, escriba tão forte quanto seus pares modernistas país afora, e dá o recado sem maiores papas na língua: aqui, rei não tem vez. O bonde vem chegando.

ESTRAGO.
Ser poeta é ser mártir?

CACO ISHAK.
Partindo do pressuposto de que pra ser poeta é preciso aprender a escutar a própria voz, sim: só se aprende a escutar a própria voz matando tudo quanto for condicionado no “ser em si”. Conforme vamos crescendo, somos ensinados a ser homens, mulheres, disciplinados, um esqueleto de recalques. Quem se diz poeta não pode ser um mercenário da palavra, tem de saber que só há salvação na guerra por uma causa sem maiores pós-verdades, ser um guerreiro da causa em si, da “coisa em si”, e não temer a morte à qual a literatura invariavelmente vai guiá-lo.

ESTRAGO.
O quanto da poesia é martírio?

CACO ISHAK.
Pergunta besta a minha, mas: o que é poesia? Auto-ajuda? Fantasia? Dor de cotovelo? Quanto mais o tempo passa, mais entendo que o caminho é sair cortando tudo isso, esfolar o bicho vivo, deixar que a carcaça toda sangre até a última gota na esperança de, quem sabe, ressuscitar em palavras. Mais entendo, portanto, que: poesia É martírio. Ao menos, a única poesia que me interessa.

ESTRAGO.
Explica o que ficou da violência sofrida por você em manifesto em São Paulo, quando você saiu em defesa de um fotógrafo que estava sendo agredido por policiais e também acabou agredido.

CACO ISHAK.
Basicamente: o medo de levar adiante o processo contra a PM sob o risco de ser alvo de possíveis retaliações, e a coragem de levar a história toda adiante no intuito de deixar o que os anciãos costumavam chamar de legado às únicas pessoas que, no fim, importam: minhas filhas, como já disse. Quando vi aquele moleque de 20, 21 anos prestes a ser baleado, ou atropelado, agredido e preso como acabei sendo, a primeira coisa que me veio à cabeça foi: poderia ser minha filha. O que por si só não deixa de ser um pensamento egoísta. Minha filha branca, classe média-alta, agraciada com todos os “privilégios” pintados pela sociedade a não ser pelo fato de ter nascido mulher. Não posso deixar de pensar nela, evidente, mas é minha obrigação pensar no moleque preto, pobre e favelado que toma pescotapa da PM todo santo dia, que viu o irmão ser assassinado pela PM um mês depois do luto pelo pai enquanto a irmã era estuprada. O abuso de autoridade por parte dos militares não é novidade alguma, não foi inventado de 2013 pra cá, nem nunca terminou com o fim da ditadura. É prática cotidiana de uma instituição corrompida e irrecuperável. Não dá nem pra dizer que se trata de uma prática velada, pois todos sabem, todos veem. Simplesmente não se importam, a menos que seja na porta de casa. De quando fui preso pra cá, “desacato” deixou de ser crime. Já é um avanço. Tímido, mas um avanço. Que sirva pra fortalecer a contracorrente. Quanto a mim, não vou sossegar até que a PM seja extinta de vez.

ESTRAGO.
Tem um lado teu que é próximo da academia. Quais são as tuas questões acadêmicas? O que vale a pena investigar e revelar?

CACO ISHAK.
Minha história com a academia, na real, foi uma breve tragédia: advogado por coerção, desisti do curso de Ciências Sociais no primeiro dia de aula argumentando que aquelas quatro horas diárias seriam mais bem aproveitadas no quarto lendo Casa Grande & Senzala, e abandonei a faculdade de Jornalismo no segundo ano pra fazer logo o mestrado de uma vez. Desempregado, a bolsa de estudos me pareceu uma excelente contrapartida na época, a despeito da ojeriza já então nutrida quanto ao mundinho acadêmico. Resultado: quase três anos de puro esgotamento intelectual em que fiquei sem escrever uma linha de ficção, nem um versinho sequer saía. O objeto em si da dissertação, epistemologia da informação quântica, era tão alucinado que meu orientador (Eugênio Bucci) se incumbiu de cortar sem piedade qualquer trecho que bandeasse pro lado da crônica, o que certamente me deixou condicionado. Mas o tema era um desejo antigo, nasceu com o interesse pela mecânica quântica nos idos de 2000, 2001. Incomodado com o frenesi da “revolução informacional” apregoada pelos entusiastas da rede, considerava perda de tempo tanto estudo tendo como base algo que em poucos anos nem existiria mais. Ao menos, não do modo como vinha sendo estudado. O que me fez partir rumo ao futuro próximo, à computação quântica, que vai totalmente na contramão desse entusiasmo todo. Um futuro dominado por monopólios de supercomputadores, por ciborgues, inteligência artificial, internet das coisas, em suma: nós contra as máquinas. E nós aqui, ainda discutindo questões de gênero como se fossem a grande descoberta do século XXI, ainda discutindo se blog é literatura. No fim das contas, a pesquisa realizada durante o mestrado acabou se mostrando fundamental na revisão do Eu, Cowboy, trechos inteiros foram (re)escritos com base no que tinha aprendido com Vladko Vedral, Lucien Sfez, Matt Mason, Peter Sloterdijk. Uma certeza, todavia: doutorado, nem pensar. A menos que seja no CERN com passe livre ao LHC e uma irrecusável bolsa de estudos. De resto, não há o que eu não possa investigar fora dos centros de pesquisa, nas ruas, e levar direto pra minha literatura, portanto: a academia se torna dispensável. A academia, a bem da verdade, está mais interessada em suas certezas acerca do que já foi supostamente revelado do que naquilo ainda por se revelar, o que nos faz voltar à supracitada matéria-prima da ficção: a dúvida. Essa tal de Singularidade.

 

 

Poema escrito no intervalo da entrevista

quem fumou do meu cachimbo?
quem deixou o cachimbo encharcar?

cantaram a pedra
faço tudo errado disseram
jogo as bitucas na privada vou e
gozo no cinzeiro renderizando as cinzas
da pedra que um dia fumamos em textos que jamais

escrevemos

quem fumou do meu cachimbo?
quem deixou o fumo encharcar?

– – – – – –

Caco Ishak, nascido em Goiânia, criado em Belém, jamais poderá ser resumido apenas como escritor. Além disso eu diria: um desses poetas que surgem de tempo em tempo e que para ser poeta jamais precisariam escrever um verso. Pela 7Letras, lançou “Má reputação” (2006) e “Não precisa dizer eu também” (2013). Seu primeiro romance, “Eu, Cowboy”, foi publicado em 2015 pela Oito e Meio. (P.S.)

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