Eleger o ápice

textos Isabela Romeiro Vannucchi

 

 

Irmãos

Corre para o espelho
vê os olhos dos mutilados
o não azul dos ausentes
a fibra aberta daqueles que
sempre morrem afogados
na areia

Corre para o espelho
abra os dentes como
sua descendência
abriu pernas.
Neste riso
há mais ancestrais ou mortos?
fóssil eu
não os mostrava
tão depressa
esperava ao menos a presa
beijar a testa do miúdo
para depois sim

Corre pro espelho
vê a pele cor
de culpa que esculpe
suas bochechas sadias.
Envaidece seus lábios omissos
com batom cor daquela chacina
que

Corre para o espelho
vê aquela moldura solene
enquadrando pescoços
sem retrato nas guilhotinas.
Amacia seus cabelos como
fazem as mãos próximas aos impúberes .
Como faz o verme bendizendo o hume
dos humilhados pela dor da fome e outras
que

Corre pro espelho
vê teu nariz fino estatuindo a beleza
seus olhos tracejando o a partir do submundo
leve suas mãos cirúrgicas as narinas
sente ao menos nos dedos
a sensação de receber o tóxico
que borbulhou pulmões fazendo-os
agitar como estas borboletas
que cintilam seu jardim.
Estávamos todos na sua caixa
torácica e morremos deste seu ar
que

Corre para o espelho
tateia seu peito robusto
o contorno semilimpo da sua
mandíbula de degustar o mando e se livrar da morte .
Toca seu tronco
de bater em troncos,
seu peito, este imenso eco
seu ombro largo de pendurar
distinções e jugulares
que

Corre pro espelho
branco branco ainda
rejunta esse sangue todo
cria essas raízes que
não lhe são endêmicas .
Pinta da cor dos sonhos a dor que nunca experimentou .
Imagina sanguessugas nos teus olhos.
Imagina a sua mãe.
Agora a imagine aberta
e poderá dizer que sua mãe lembra a manhã.

 

Enquanto amor te é doce

Na casa
da minha vó tem um mar
que só teve forças para sete ondas
na casa da minha vó tem um tio que só teve forças para
sete versos depois os dois viraram um lago grande mas eu ainda chamo
meu tio de mar porque seus olhos brilham e ele se esforça para ondular mesmo
sendo agora só uma lembrança enterrada debaixo da saia da casa do lago da minha vó

 

A breve história do amor

Pode começar sem dar nome
depois levamos a registro
mergulhamos na água óleo na
bacia hóstia sagrada de cobre
com uma cruz na testa e outras
tantas nas costas chamaremos de
amor ou fé vide o sexo já que o
fundamento é atestar impotências
mas isso não importa agora pode
começar do fim pode eleger o ápice
pode por veneno arma na cara pode
só desamar também pode morrer de
rodovia de câncer pode enjoar trair
afogar o riso o miolo do pão pode
ser até de ficar velho pode descansar
eterna paz de raio tombo na calçada
molhada de ipê gosma quebrar a
bacia óssea sangrada de titânio
com uma cruz na testa fatalidade pode
ser de refluxo de camarão de desgosto
avc etc

só é preciso que termine

– – – – – –

Isabela Romeiro Vannucchi, 23 anos, nascida em Dourado/SP, atualmente reside no Rio de Janeiro onde cursa Direito pela Faculdade Nacional de Direito – UFRJ. Aos vinte anos, publicou “A terça fresta” pela editora Patuá, um livro de poemas de maturidade impressionante, um livro incomum, um livro que merece muito ser lido.

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