Sobre poesia brasileira contemporânea

artigo Sandro Ornellas

 

 

A poesia brasileira contemporânea entrou definitivamente no mercado artístico. Para além do seu tradicional valor de uso (pessoal, cultural ou escolar), adquiriu mais recentemente valores de troca (vale algum dinheiro) e de exposição (ganhou alguma visibilidade). Mesmo sem poder competir no mercado com produtos com mais poder de barganha, pode-se contratar um competente poeta para um bom show – que inclua leitura-ou-récita de poemas, acompanhada ou não de performance, comentários e bate-papo – por um custo bastante acessível. Quase todos têm sites ou páginas em redes sociais, onde divulgam seu trabalho com textos, resenhas críticas, fotos, vídeos. Por isso, finalmente, o poeta entrou no rol dos artistas públicos, o que tem dado a alguns certo status e até um dinheiro pingado. Se antes ser poeta no Brasil era enfrentar três tipos de trabalhos – escrever um livro, publicá-lo e divulgá-lo –, hoje já há a percepção de que pelo menos não é mais necessário a um poeta publicar livros. A falta de uma cultura livresca no país (que continua tão restrita e excludente quanto sempre foi) tem feito a poesia recuperar não só sua forma vocalizada como também achar na internet o grande suporte para tornar-se mais lida, comentada e acessível. Quem não vê vez por outra um poema passando em sua timeline do facebook? Ali – ao lado de Bandeira e Drummond – estão milhares de poetas brasileiros vivos disputando a atenção dos leitores. Talvez por isso só valha a pena falar de forma crítica da atual poesia brasileira sem falar o nome de nenhum poeta ou livro de poemas. Só quem pode de alguma forma dizer quem são e onde estão eles hoje no país é o Google e seus implacáveis algoritmos. Há poetas vivos de todos os tipos, linhagens e perfis, criando e prontos para mostrar algum bonito exemplar de sua lavra à primeira atenção dispensada a eles. De resto, é impossível mapeá-los no complexo e continental panorama brasileiro.

Na atual crise de autoridade em todo o mundo, podemos incluir a) a crise de uma escola incapaz de competir com o mercado cultural em criar referências socioculturais para as pessoas; b) a crise do mercado editorial, com seus interesses via de regra limitados ao centro econômico do país e incapaz de fazer frente à exuberante cultura digital; e c) a crise da crítica literária, especializada em fazer o trabalho sujo de falar bem ou mal do que jornais e revistas não podem e não querem mais fazer (e quando fazem se parece com um arremedo desbotado do que outrora foi pelo seu alcance limitado e seu interesse marcado). Se isso, todavia, parece um cenário negativo, friso que considero essas crises como positivas, pois elas são efeito de uma diversidade poético-cultural pujante e impossível de ser captada e resumida por quem quer que seja. De forma que cada vez mais a única maneira radicalmente honesta de se escrever sobre poesia brasileira contemporânea limita-se a afirmar que ela está viva e ativa em absolutamente todos os cantos e recantos do país, dos mais badalados aos mais invisíveis. E cabe única e somente ao público apurar seu desejo, seu olhar e sua vontade de consumir poesia – de modo a escapar às pedagogias homogeneizantes das agências publicitárias.

– – – – – –

Sandro Ornellas vive em Salvador, BA. Poeta e professor na Universidade Federal da Bahia. Ensina, lê e escreve textos críticos. Autor de “Formas de cair” (2011, poemas), assinado como Sandro So, e “Linhas escritas, corpos sujeitos” (2015, ensaios).

Salvar

Anúncios

1 comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s